VINHEDOS DE SANTA CATARINA

Viagem  a  Santa  Catarina

 BJD - SC 003 (Villaggio Grando - Parreiral)

 

Não é novidade para ninguém que viajar é um dos maiores prazeres da vida. Além de fazer bem aos olhos e ao espírito, ainda proporciona o que muitos chamam de “um banho de cultura”. A troca de experiências e o “conhecer o diferente” nos torna mais civilizados, sem dúvida. As vezes, nem precisamos viajar para muito longe para perceber as maravilhas que nos cercam, basta estar de mente aberta.

 

Para minha sorte, na profissão de sommelier, viajar é uma constante e sempre estamos atrás de novos produtores, de regiões pouco conhecidas e de vinhos desconhecidos. Neste mês de Março, eu tive a oportunidade de viajar a Santa Catarina para conhecer alguns produtores de vinhos que estão dando o que falar.

BJD - SC 002 (Villaggio Grando - Varanda)

Nosso primeiro destino foi o meio oeste catarinense, próximo à divisa com o estado do Paraná. A região é muito bonita e merece uma visita, independente do vinho. Conhecida como “campos de altitude”, a região é de planalto elevado (1.200m), com pequenas cidades (Caçador, Calmon, Videira…) que se espalham por reservas de araucárias, pinheiros e eucaliptos que se perdem de vista. O relevo é de montanhas mais suaves e o Rio do Peixe é a principal referência fluvial.

 

É nesse cenário que está localizada a vinícola Villaggio Grando, um projeto surpreendente de um homem empreendedor e visionário, chamado Maurício Grando. Tudo começou no início da década de 1990, quando um amigo francês lhe disse que aquelas terras eram especiais e que poderiam produzir belos vinhos, “se ele quisesse…” Como diz o dito popular: “cutucaram a onça com vara curta”, estava lançada a idéia (ou desafio).

 

Acontece que o Maurício não entendia nada de vinicultura, o negócio dele era madeira e outras atividades. É nesse momento que a gente percebe quem é empreendedor de fato. Ele viajou e visitou inúmeras regiões e produtores, contratou especialistas, pesquisou e analisou o solo e aprendeu muito. Em dezembro de 1998 criaram um laboratório a céu aberto, plantando as primeiras mudas de várias castas para ver quais se ambientavam melhor. Em 2000 começou a formação dos primeiros vinhedos comerciais com as castas mais indicadas. As primeiras garrafas só chegaram ao mercado em 2005.

 

 

Hoje, a vinícola conta com 45 hectares de vinhedos, sendo que 02 hectares são exclusivos para as pesquisas de castas. A produção gira em torno das 200 mil garrafas, dividida entre espumantes, brancos, rosés e tintos. São 19 castas em cultivo comercial e mais de 80 em cultivo experimental! Essa loucura atraiu inúmeros institutos de desenvolvimento vitivinícola e, hoje existem técnicos brasileiros, franceses, italianos e portugueses pesquisando e testando novos clones e técnicas de manejo e de produção.

BJD - SC 004r (Villaggio Grando - Família)

 

Chegamos à vinícola pela manhã e fomos recebidos pelo Maurício, Josy (esposa) e Guilherme S.Grando (filho), que além de ser sommelier, é o atual diretor comercial da vinícola. Simpático, solícito e competente, ele herdou do pai a paixão pelo vinho. Maurício continua ativo no projeto, sonhando, inventando e idealizando novos desafios; Josy, por sua vez, é uma anfitriã de mão cheia, nos deixou super a vontade e com a impressão de que nos conhecíamos há muito tempo.

BJD - SC 007r (Villaggio Grando - Espumantes)[1]

A sede da vinícola está no coração de uma incrível fazenda de 1.700 hectares, repleta de lagos, reservas de araucárias e vinhedos (lógico). Começamos degustando três espumantes. Um Brut Rosé feito com Pinot Noir e Merlot que surpreendeu muito; um espumante Brut feito com o corte clássico de champagne (Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay) que estava muito bom e um espumante “demi sec” chamado Chance, feito de um corte inusitado de Riesling Itálica e Trebbiano. Em seguida, foram servidos dois vinhos brancos de muita competência. O Sauvignon Blanc 2012 não estagiou em madeira, se apresentou bem fresco, frutado, mineral e com o álcool bem encaixado; muito típico e com um final “fumé”. Com mais algum tempo de garrafa ficará excelente. O Chardonnay 2012 é outro belo vinho que não estagiou em madeira e que apresentou aromas mais florais, minerais e algo de mel. Muito fresco, vivo e que irá evoluir por mais 03 anos.

SC2

Pelo andar da carruagem, eu desconfiava que ainda fôssemos ter outras agradáveis surpresas. É incrível como nessas horas, o tempo não passa; parece que tudo está congelado ao seu redor e só existe aquela sensação, aquele sentimento. Acredito que são momentos assim que fazem a vida valer à pena. Enfim…

BJD - SC 006r (Villaggio Grando - Tintos)

A bateria de tintos começou com um Pinot Noir 2012 de tirar o chapéu; equilibrado, fresco e com ótima tipicidade. Em seguida, foi servido o vinho que eu mais aguardava: Innominabile IV. Esse vinho tem uma história interessante: Ele foi concebido para ser um corte de várias castas e de várias safras!!! Assim sendo, o lote IV é composto por Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Malbec, Pinot Noir, Petit Verdot e Marselan, das safras de 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008. Loucura total. Mas o resultado é incrível, uma mistura de maciez com frescor, apresentando ao mesmo tempo aromas frutados e evoluídos (terciários); longo de boca. Se eu fosse resumir numa única palavra, diria que o vinho é fascinante.

 

O próximo vinho também tem uma história interessante… António Saramago é um dos enólogos mais respeitado de Portugal, ele já foi eleito duas vezes o melhor do ano e, para nossa sorte, é amigo do Maurício. Resultado, os dois resolveram fazer um vinho “a moda portuguesa” na fazenda e deram o nome de Além Mar. Ele é um corte de Cabernet Franc, Merlot e Malbec que estagia em madeira francesa por 08 meses. Não sei dizer se eu estava influenciado pela história, mas, para mim, o vinho tinha uma pegada portuguesa, algo de Palmela. Muito bom, gostei. Para encerrar a degustação, foi servido o Innominabile I. O primeiro vinho da série, feito apenas com as safras 2004 e 2005. Novamente fiquei impressionado pela estrutura e potencial de guarda. Degustação memorável, sem dúvida.

BJD - SC 005r (Villaggio Grando - Barricas)

 

 

Creio que vocês imaginam que depois disso tudo a gente se despediu e fomos embora, né? Nada disso, a Josy havia preparado um delicioso almoço com direito à javali assado que estava soberbo. Para fazer a digestão, ainda visitamos as instalações da vinícola, degustamos um monte de vinhos experimentais, jogamos conversa fora e quase ficamos para jantar. [rindo] Semana que vem contarei sobre a nossa visita a vinícola Vila Francioni. Saúde a todos.

Por André Monteiro

Eu sou 1 dos 7.

2 comentários Adicione o seu

  1. Isabel Vohringer disse:

    AO LER SEU RELATO E POSSIVEL SENTIR A PAIXAO QUE OS VINHOS DESPERTAM, MAS ACIMA DE TUDO A CONVIVENCIA COM OUTRAS PESSOAS, HARMONIOSA E DE MUITA TROCA. PARABENS

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  2. Eduardo disse:

    Parabéns pelo post.

    Tive o prazer de degustar os excelente vinhos da Vínicola Villaggio Grando, porém nunca conheci a história da Vinicola, foi muito bacana ler esse post em função disso.

    Gostei muito.

    Abço

    Eduardo

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