Um passeio por Mendoza

 

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A evolução que o mercado de vinhos apresentou a partir da década de 1970 é impressionante. E talvez, o mais importante é que nunca tivemos tantos vinhos de qualidade a nossa disposição como nos dias de hoje. Nestas últimas décadas, inúmeros países tornaram-se importantes produtores de vinhos e, nesse contexto, a Argentina vem se destacando. Há mais de 15 anos, quando escrevi minhas primeiras impressões sobre os vinhos argentinos, disse que esse país era o “gigante adormecido do mundo vitivinicultor”. Hoje, afirmo com completa segurança que esse gigante está bem acordado e não se imagina seus limites!

Mês passado viajei com um grupo mais uma vez para a Argentina atrás de vinhos. Meu destino foi a cidade de Mendoza (capital da província homônima), com mais de mil vinícolas, responsáveis por 70% da produção nacional (sendo 80% exportada). Ela sabe que o seu sucesso e sobrevivência dependem do vinho e, graças a Bacco, ela tem vocação para tanto.

A cidade é espetacular e deliciosa de visitar; moderna, planejada, plana e com grandes eixos visuais. Mendoza possui uma estrutura turística preparada para atender qualquer desejo do mais exigente enófilo. Os inúmeros hotéis (muito bons, por sinal) oferecem passeios programados às vinícolas mais conhecidas e estão sempre dispostos a ajudar no que for preciso. A maioria dos produtores fica próximo à cidade (é recomendável fazer agendamento prévio) e inúmeras vinícolas aderiram à moda de ter sua própria pousada de charme.

Desta vez, eu passei uma semana em solo mendocino, ficando hospedado no excelente hotel Diplomatic; luxuoso, central e cheio de mimos. Altamente recomendável. Os vinhedos estavam carregados de cachos de uva, esperando o momento exato para serem colhidos. Ver os parreirais cheios é muito bonito, rende ótimas fotos e ainda é didático, pois podemos experimentar as uvas maduras e perceber as diferenças entre as variedades.

Começamos o primeiro dia de degustações pela região de Luján de Cuyo, com uma visita a Bodegas Lagarde. As instalações ficam numa antiga sede de fazenda preservada e a produção anual gira em torno de 1,5 milhões de garrafas (vinícola de tamanho médio para a região). Seus vinhos foram uma grata surpresa. Em seguida, rumamos para a famosa Bodega Catena Zapata (25 milhões de garrafas por ano). Só o fato de pronunciar esse nome já causa felicidade em muito enófilo, imaginem então, passar pelo portão da propriedade, seguir por uma estrada de terra ladeada por vinhedos antigos de Malbec e Cabernet Sauvignon e chegar numa sede que lembra uma pirâmide maia. É de perder o fôlego. Degustamos apenas os vinhos tops e, ao final, ficou claro para todos os motivos que fazem a Catena ser uma das vinícolas mais admiradas do mundo. A recepção é um pouco fria, uma pena.

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De volta à estrada, nossos estômagos precisavam de alguma coisa sólida para contra balancear as duas dezenas de amostras de vinhos já degustados. Nosso destino era o restaurante que fica dentro da Bodega Ruca Malén, na sub-região de Agrelo (01 milhão de garrafas por ano). Considerado um dos melhores da Argentina e sempre bem posicionado nas listas dos melhores restaurantes de vinícola do mundo, o nosso almoço só poderia ser espetacular. O chef Lucas Bustos apresentou um serviço exemplar de 05 pratos muito bem executados, acompanhados de 05 vinhos que harmonizaram perfeitamente. De volta ao hotel, o resto da tarde ficou livre. Como o calor estava intenso, eu resolvi “pensar na vida” perambulando pelas ruas do centro, sem destino. À noite, o grupo se reuniu para jantar no Azafrán, tradicional restaurante mendocino e famoso pela sua carta de vinhos. Ocupamos a mesa que fica dentro da adega. Quanta insensatez!!!… Dormimos felizes.

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No dia seguinte, após um revigorante café da manhã, saímos em direção à região de Maipu. O dia estava lindo e nosso primeiro compromisso foi a Bodega Trapiche, fundada em 1883 (37 milhões de garrafas por ano). Fomos bem recebidos, fizemos uma visita básica pelas instalações e pudemos apreciar a beleza arquitetônica do prédio principal em estilo “florentino” de 1912. Degustamos uns 08 vinhos, com destaque para o “Trapiche Manos Malbec 2005”. As vinícolas nem sempre são perto umas das outras e às vezes a gente perde um “bom tempo de taça” para chegar. Nosso próximo destino era a super conhecida vinícola, Família Zuccardi (22 milhões de garrafas por ano).

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Sempre que vou a Mendoza, faço questão de visitar esse produtor. A forma como eles recebem e o carinho que eles demonstram com todos os visitantes é contagiante. Ainda mais quando, depois de tantas visitas, eles já te conhecem; aí você pode dizer que está em casa. O Diego Torres, gerente de exportação, pediu que a gente reservasse toda tarde para a visita, avisando que teríamos algo “especial”. Meu sorriso foi de orelha a orelha, chegamos lá as 11 horas da manhã e saímos as 05 da tarde. O grupo se sentiu num parque de diversões. Começamos com um brinde de espumante enquanto assistíamos ao vídeo institucional, depois seguimos pelas instalações mais restritas (sala de micro fermentações, sala de novos experimentos e sala dos “ovos”). Nem me perguntem, é coisa para louco. Nesse momento, fizemos duas degustações incríveis: Analisamos 03 vinhos da casta Bonarda e mais 04 vinhos de Malbec de “terroirs” distintos para perceber a influência dos solos e dos micro-climas nos vinhos. Essa valeu mais do que um curso inteiro.

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Em seguida, fomos para a sala de barricas degustar diretamente da fonte e perceber as diferenças do uso da madeira nos vinhos; fantástico. Juán Manuel Cabrera, um dos enólogos da Zuccardi que nos acompanhava explicando tudo, nos convidou para subirmos até a sala de imprensa e degustarmos alguns outros vinhos. Para nossa surpresa, encontramos com José Alberto Zuccardi (o próprio Sr.Zuccardi), que foi muito simpático e solícito. Eram 03 horas da tarde quando todos descemos ao restaurante “Casa del Visitante” para almoçarmos uma típica “parrillada” e matarmos a sede com mais alguns vinhos. Final de expediente, hotel e cama.

Apesar da enorme crise (financeira, social, política…) que está instalada na Argentina e que não tem data para acabar (pelo menos enquanto prevalecer a vontade da Sra.Cristina Kirchner), Mendoza sente menos seus efeitos. O negócio do vinho (principalmente as exportações) e o turismo eno-gastronômico ainda mantêm certo nível de atividade econômica positiva. Porém, você percebe o tamanho da encrenca quando anda pelo centro, visitando o comércio em geral e constata o desabastecimento de produtos de primeira necessidade, a qualidade inferior do que há disponível e a precariedade dos serviços públicos. É triste. Tenho receio do “efeito Orloff”.

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O terceiro dia começou a todo vapor, ou melhor, vinho pelo Valle de Uco. Eu havia agendado uma visita “especial” na Salentein (2,8 milhões de garrafas por ano) para o grupo. Essa é outra vinícola que eu sempre adoro voltar, me sinto em casa. Seus vinhos são muito bons, consistentes e os tops impressionam; nestes casos, a mão do renomado enólogo Pepe Galante faz a diferença. Além disso, a arquitetura do local é de tirar o fôlego, com a Cordilheira dos Andes servindo de moldura. A sua sala de barricas é considerada uma das mais belas do mundo, ganhadora de inúmeros prêmios. Em minha opinião, visitar essa sala já vale a viagem a Mendoza. Fomos muito bem recebidos e visitamos tudo sem pressa. Prepararam 02 degustações distintas: uma horizontal de Malbec e outra de vinhos tops. Show.

O tempo voou na Salentein e quando percebemos, já estava na hora do almoço e eu tinha uma reserva no restaurante da vinícola Andeluna (02 milhões de garrafas por ano). Eu gosto dos vinhos deles, são corretos, honestos e quase nunca decepcionam. Mas, acho que ainda falta um toque de genialidade, um algo a mais. Em compensação, o restaurante deles é um espetáculo a parte: instalado num amplo casarão de fazenda, cercado pelos vinhedos, com vista para a cordilheira e tendo a cozinha totalmente aberta para o salão. O chef Bruno Zerhau preparou um menu com 06 pratos que privilegiavam os ingredientes locais, harmonizados com 04 vinhos. Foi espetacular.

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Eu reservei para o último dia de degustações alguns novos produtores que estão fazendo muito sucesso: Achaval Ferrer e Viña Cobos. Duas vinícolas pequenas que atualmente produzem alguns dos melhores vinhos da América do Sul. Fomos muito bem recebidos, experimentamos todos os vinhos e, ao final, ficou a certeza de que era impossível não se render à qualidade, estrutura e elegância desses néctares. Quimera, Finca Altamira, Finca Bella Vista, Finca Mirador, Bramare Marchiori e Cobos Volturno, apesar de serem desconhecidos para a maioria dos mortais, são nomes que precisam estar na mente de qualquer apaixonado por vinhos, pois vão dar muito o que falar nestes próximos anos.

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Terminamos nossa aventura por Mendoza com um ótimo jantar no famoso e tradicional “1884 Restaurante” do chef Francis Mallmann. Dentro do avião, sobrevoando os Andes, pensei em tudo que vi e aprendi naqueles dias e, para minha alegria, conclui que o vinho argentino está num ótimo momento, com centenas de produtores sérios fazendo vinhos magníficos. É uma região deliciosa, alegre, vibrante, com um povo acolhedor e uma vontade enorme de fazer sempre melhores vinhos. Para nossa sorte, tudo indica que Mendoza irá sobreviver a Cristina. Um brinde aos amigos que lá deixei. Olé !!!

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Por André Monteiro – Eu sou 1 dos 7

1 comentário Adicione o seu

  1. Já deu vontade de ir para lá André.

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