VINHOS DE SOBREMESA: entre o doce e o sublime

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Ah, o açúcar… essa substância deliciosamente perigosa que causa imediata sensação de bem-estar e recompensa. Sensação que, aliás, é muito similar ao prazer causado pelo vinho. Agora una as duas coisas e faça bons vinhos de sobremesa: o resultado não poderá ser menos do que sublime.

Mas, nos bons vinhos de sobremesa, o açúcar não é a única estrela. Muito pelo contrário: ele é o protagonista que sabe dar espaço para os coadjuvantes. Estamos falando do perfeito equilíbrio entre dulçor e acidez, características que tornam os vinhos agradáveis e permitem harmonizações mais ousadas.

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Exatamente por isso, o nome “vinho de sobremesa” não é exatamente apropriado, pois esse tipo permite experimentações muito além do tradicional “Porto com chocolate”. São ótimos como aperitivos, em celebrações, com pratos principais, como digestivos, para acompanhar charutos e, é claro, com os mais diversos tipos de doces.

 

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Como há vários métodos para tornar o vinho doce, o nome “vinho de sobremesa” é uma solução para colocá-los numa mesma categoria. Mas podemos dividi-los em alguns grandes grupos: os fortificados, os afetados pela podridão nobre, os de colheita tardia e os vinhos frisantes e espumantes.

Vamos começar pelos últimos, que são ótimos para começar qualquer festa! Os espumantes, após a segunda fermentação, recebem o chamado “licor de expedição”, que define o nível de açúcar que a bebida terá. Já entre os frisantes, quem merece um lugar especial no coração (e na adega) são os Moscato d’Asti: produzidos na região homônima do Piemonte, esses vinhos são fermentados uma única vez em tanques pressurizados, que mantêm o gás carbônico no vinho. Como resultado, temos um vinho de baixo teor alcoólico (entre 4,5% e 6,5%) e com as deliciosas notas da Moscato preservadas: pêssego, damasco, flor de laranjeira….

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Já entre os fortificados, o mais consumido e conhecido pelos brasileiros é o Vinho do Porto. Eles são chamados de “fortificados” porque, durante a fermentação, recebem adição de aguardente vínica (chamada de bagaceira em Portugal). Esse procedimento eleva o teor alcoólico do vinho e a quantidade de açúcar residual.

Há Porto para todos os gostos: o estilo Ruby, que além dessa mesma cor, apresenta muita característica de frutas maduras; Tawny, que mostra uma cor acastanhada por causa do envelhecimento em madeira (3 anos para os mais jovens) e notas de nozes, castanhas e frutas secas; Tawny com indicação de idade: 10, 20, 30 e 40 anos (essa é a idade média do vinho). São vinhos mais caros, mas recompensadores pelo complexo buquê. E a dica de harmonização é: tente um queijo azul, como um gorgonzola mole. Prometemos que a sua vida não será mais a mesma.

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Ainda em território português, mas agora no meio do Atlântico, outro fortificado que merece atenção é o vinho Madeira, pois o processo de envelhecimento é bastante peculiar. Para imitar as condições que o vinho passava nos porões dos navios no caminho até as Índias, ele é “cozido” (segundo dizem os portugueses), ou seja: é submetido a altas temperaturas, o que causa oxidações e reduções sucessivas. Como resultado, temos um vinho bastante concentrado, de cor âmbar, com muita complexidade: notas de pinho, frutas secas, chá, mel, noz-moscada e muito mais…

Na Espanha, a estrela é o Jerez. Com um método de produção complexo e muito apreciado em suas versões secas, este vinho também encanta apreciadores de charutos em suas versões adocicadas. Entre os fortificados, o Oloroso Cream ou Dolce apresenta sabor intenso de frutas secas e café. Na mesma região, o Jerez Pedro Ximénez (PX) é feito a partir de uvas passas que secam ao sol depois de colhidas. Como resultado, temos um vinho bastante concentrado, com textura de xarope – delicioso para acompanhar sorvetes.

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Saindo do mundo dos fortificados, entramos no mundo dos fungos (os bonzinhos). Em algumas regiões privilegiadas do planeta, condições ideais de relevo e clima permitem que o fungo chamado Botrytis cinerea seque as uvas no cacho sem apodrecê-las. Em vez disso, os açúcares do fruto ficam concentrados. Um dos vinhos botritizados mais desejados do mundo é o francês Sauternes: doçura perfeitamente equilibrada com acidez, muito frescor, notas florais, de mel e de cera de abelha. O vizinho Monbazillac é produzido sob as mesmas premissas.

Na Hungria, a podridão nobre é responsável por um dos maiores vinhos do mundo: Tokajij, também conhecido por “rei dos vinhos, vinho dos reis”. Sim, é desse nível de perfeição. É feito a partir de um vinho base das uvas Furmint e Hárslevelû, no qual são adicionados cestos de uvas botritizadas. Cada cesto (chamado de puttonyo) tem aproximadamente 25 quilos, e a quantidade deles define o nível de doçura do vinho. E de tão bom que é, esse vinho vai bem de qualquer jeito.

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Passando para o Novo Mundo, há os vinhos chamados de “colheita tardia” ou “late harvest”, em inglês. Os produtores deixam as uvas secar no próprio cacho, e então iniciam o processo de vinificação. Esse tipo de produção depende de climas quentes e secos, para que as uvas não apodreçam, e por isso vão bem em países como Chile, Argentina e até no Brasil. Em regiões frias, como Canadá e Alemanha, são feitos os vinhos chamados de “icewine”, que têm a mesma premissa do late harvest: as uvas são colhidas congeladas, dando origem a vinhos concentrados e doces.

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Enfim, para a nossa alegria, há muitos estilos e possibilidades. Por isso, o melhor é conhecer, degustar, desbravar. E se deliciar, é claro.

Escrito por

natalia

Natalia Cacioli, jornalista e enófila, escreve sobre vinhos para a Evino Importadora e Web Store, é certificada pela ISG (Internacional Sommelier Guild e estudante do curso de Sommelier no Senac. Veja mais: Natalia Cacioli

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